segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O que quer tomar?

Entre, o que quer tomar?
Jogue teu casaco no sofá e sente-se aqui. Não, aqui não faz frio, te dou um vinho, essa é a minha solução. Sente-se ao meu lado, quero ouvir tuas palavras ao pé do ouvido, quero ver a arte dos seus olhos monocromáticos e sua visão transparente. Não precisamos ser rápidos, tenho muito vinho para essa noite longa. Não me venha com o sorriso francês, com traços de uma linha tenuê. Nosso caso é sério, muito sério pra ser levado a sério. Fale, de nada adianta deixar tudo na garganta, tens uma única vida, não vieste aqui só pela bebida e teu casaco não é típico de alguém que irá embora há essas, assim, tão rápido, tão depressa. Seus passos estão curtos, seus movimentos calmos, não é de alguém que veio à toa. No hall de entrada a luz ta cortada, não repare o caos. Se você duvidar, eu faço questão, me dê uma música e eu faço o refrão. Podemos fazer arte, pode ser abstrata, ou surrealista, expressionista ou impressionista, tanto faz. Vamos fazer arte, podemos começar com cócegas, depois um sorriso, troca de respiração, na linha tenuê do nosso corpos podemos contorná-los com as mãos, podemos terminar no suspiro poético ou no calor do inferno. Podemos fazer arte, artificial. Dou-te o grito, meu último grito. Na sala, sobre papeis amassados, palavras espalhadas, gargantas trancadas. Tragos roubados. Você pode entrar e sair, só pra se distrair. Às vezes isso pega mal, mas é como uma pessoa normal, um pouco temperamental, fundamental. Só me vem quando não tem certeza, me diz com juras para pagar beleza. Depois do vinho, vamos brincar com cachaça, a arte surrealista, nos misturamos na tinta e rolamos nossos corpos nus sobre os quadros no chão. Eu teimo que não sou pra isso, mas nossos olhos gostam de correr o risco. Pensávamos que esse era um dia diferente, dos quais costumávamos viver. Antes que nós esquecêssemos, escrevemos nossos nomes nesse papel, mas essa noite é uma piada. Senti meu coração se dissolver com o vermelho-paixão. Pelo tapete, copos derramados, meu cabelo misturado resultado de nossa arte de tinta amarela. Tontos, tolos, bobos, fazíamos arte ao nosso modo. A bebida havia acabado. Peguei-me no sono.

Um barulho, acordo! Ao meu redor, tudo limpo, tudo seco. Vejo nossos papeis num livro sobre a mesa. Nossos quadros penduradas pela casa. Garrafas ao lado do lixo, e na geladeira um bilhete:
>Então sonhe, querida, querida, sonhe com quem você ama
Desse jeito você vai se encher de mundo com amor, talvez eu volte. Tenho medo de receber seu amor. Só tenho rancor e decepções pra te oferecer, mas quero fazer arte, quero viver de arte com você. Ainda tenho tinta sobre meu corpo, fiz questão de guardar, pra pensar em você. Talvez de noite eu volte pra me encher de você. Pra gente beber. Pra gente se esquecer. Pra gente se relembrar. Talvez essa noite eu fique pra gente arder. Primeiro, vim aqui de fora deixar no frio o que não quero te dar. Não posso me colocar dentro de você com o asco que tenho dentro. Tua arte não merece a minha. Talvez esteja sobre o efeito do álcool, mas espere até a noite, me ofereça uma bebida, tira-me o casaco, não digas nada, leia meus papeis, escute-me falar, me acalme com seu olhar e me receba pois, se voltei, não foi pra te machucar. Não me faças caso ou vou me perder. Entre o frio ou mágoa sem cessar, eu vou te suplicar da nossa arte pela arte, pra vivermos uma vida dadaísta, dar-te pra ti, das te pra mim...



Enchi minha adega, comprei novas telas, mudei as tintas e novos cadernos. Esperava a noite chegar. Antes que eu me esqueça da minha cabeça, ainda teimo que não sou pra isso, mas meus olhos precisavam correr o risco.

“Eu mereço muito mais que esses planos pequenos, esses abraços vazios e esses amores em conta gotas. Cansei de ser vista pela metade, abraçada por costume, e amada sem saber o que significa. Falaram por aí que eu era tanta coisa, outros poucos conseguem ver quem eu realmente sou e aonde eu mereço estar. Estou indo achar o meu lugar no mundo, aonde eu fui feita pra estar. Onde eu nasci pra estar. Por anos sustentei tudo dentro de mim, guardei, aliviei com os olhos quando a vontade era de estourar qualquer coisa que fosse capaz de me atingir. Descobri que não posso socar o mundo, não posso exigir que bilhões de pessoas me vejam. Que muitas vezes eu abracei por desespero e não vontade. Que também sou confusa o bastante pra não saber o que realmente preciso. Qualquer gota me conformou, qualquer ml de afeto, de um suposto amor, foram suficientes. Hoje não são mais. Quero preencher frascos incontáveis. Aprendi que eu preciso me ver antes de querer mostrar pro mundo. Que preciso encontrar minhas raízes para distribuir meus ramos. E estou começando a senti-las por aqui.”

sexta-feira, 10 de agosto de 2012


"Cometa bobagens. Não pense demais porque o pensamento já mudou assim que se pensou. O que acontece normalmente, encaixado, sem arestas, não é lembrado. Ninguém lembra do que foi normal. Lembramos do porre, do fora, do desaforo, dos enganos, das cenas patéticas em que nos declaramos em público. Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio. Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que o seu futuro do passado não seja ressentimento. Demita o guarda-chuva, desafie a timidez, converse mais do que o permitido, coma melancia e vá tomar banho de rio. Mexa as chaves no bolso para despertar uma porta. Cometa bobagens. Não compre manual para criar os filhos, para prender o gozo, para despistar os fantasmas. Não existe manual que ensine a cometer bobagens. Não seja sério; a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa. Quem ri não devolve o ar que respira. Não atravesse o corpo na faixa de segurança. Grite para o vizinho que você não suporta mais não ser incomodado. Use roupas com alguma lembrança. Use a memória das roupas mais do que as próprias roupas. Desista da agenda, dos papéis amarelos, de qualquer informação que não seja um bilhete de trem. Procure falar o que não vem à cabeça. Cantarolar uma música ainda sem letra. Deixe varrerem seus pés, case sem namorar, namore sem casar. Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta, não há histórias para contar. Leve uma árvore para passear. Chore nos filmes babacas, durma nos filmes sérios. Não espere as segundas intenções para chegar às primeiras. Não diga “eu sei, eu sei”, quando nem ouviu direito. Almoce sozinho para sentir saudades do que não foi servido em sua vida. Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência, ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam para ser os outros em você. Transforme o sapato em um barco, ponha-o na água com a sua foto dentro. Não arrume a casa na segunda-feira. Não sofra com o fim do domingo. Alterne a respiração com um beijo. Volte tarde. Dispense o casaco para se gripar. Solte palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto. Complique o que é muito simples. Conte uma piada sem rir antes. Não chore para chantagear. Cometa bobagens. Ninguém lembra do que foi normal. Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer. É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade."