Entre, o que quer tomar?
Jogue teu casaco no sofá, e sente-se aqui. Não, aqui não faz frio, te dou um vinho. Essa é a minha solução. Sente-se ao meu lado, quero ouvir tuas palavras ao pé do ouvido. Quero ver a arte dos seus olhos monocromáticos, e sua visão transparente. Não precisamos ser rápidos, tenho muito vinho para essa noite longa. Não me venha com o sorriso francês, com traços de uma linha tênue. Nosso caso é sério, muito sério pra ser levado a sério. Fale! De nada adianta deixar tudo na garganta. Tens uma única vida. Não vieste aqui só pela bebida. E teu casaco não é típico de alguém que irá embora há essas, assim, tão rápido, tão depressa. Seus passos estão curtos, seus movimentos calmos. Não é de alguém que veio à toa. No hall de entrada, a luz ta cortada. Não repare o caos. Se você duvidar, eu faço questão, me dê uma música e eu faço o refrão. Podemos fazer arte, pode ser abstrata, ou surrealista, expressionista ou impressionista, tanto faz. Vamos fazer arte, podemos começar com cócegas, depois um sorriso, troca de respiração, na linha tênue do nosso corpo podemos contorná-los com as mãos, podemos terminar no suspiro poético, ou no calor no inferno. Podemos fazer arte, artificial. Dou-te o grito, meu último grito. Na sala, sobre papeis amassados, palavras espalhadas, gargantas trancadas. Tragos roubados. Você pode entrar, e sair, só pra te distrair. Às vezes isso pega mal, mas é como uma pessoa normal, um pouco temperamental, fundamental. Só me vem quando não tem certeza, me diz com juras para pagar beleza. Depois do vinho, vamos brincar com cachaça a arte surrealista, nos misturamos na tinta e rolamos nossos corpos nus sobre os quadros no chão. Eu teimo que não sou pra isso, mas nossos olhos gostam de correr o risco. Pensávamos que esse era um dia diferente, dos quais costumávamos viver. Antes que nós esquecêssemos, escrevemos nossos nomes nesse papel. Mas essa noite é uma piada. Senti meu coração se dissolver com o vermelho-paixão. Pelo tapete, copos derramados, meu cabelo misturado resultado de nossa arte de tinta amarela. Tontos, tolos, bobos. Fazíamos arte, ao nosso modo. A bebida havia acabado. Peguei-me no sono.
Um barulho, acordo! Ao meu redor, tudo limpo, tudo seco. Vejo nossos papeis num livro sobre a mesa. Nossos quadros penduradas pela casa. Garrafas ao lado do lixo, e na geladeira um bilhete:
“Então sonhe, querida, querida, sonhe com quem você ama
Desse jeito você vai se encher de mundo com amor, talvez eu volte. Tenho medo de receber seu amor. Só tenho rancor de decepções pra te oferecer. Mas quero fazer arte. Quero viver de arte, com você. Ainda tenho tinta sobre meu corpo, fiz questão de guardar, pra pensar em você. Talvez de noite eu volte pra me encher de você. Pra gente beber. Pra gente se esquecer. Pra gente se relembrar. Talvez essa noite eu fique. Pra gente arder. Primeiro, vim aqui de fora, deixar no frio, o que não quero te dar. Não posso me colocar dentro de você com o asco que tenho dentro. Tua arte não merece a minha. Talvez esteja sobre o efeito do álcool. Mas espere até a noite, me ofereça uma bebida, tira-me o casaco, não digas nada, leia meus papeis, escute-me falar, me acalme com seu olhar e me receba, pois se voltei, não foi pra te machucar. Não me faças caso, ou vou me perder. Entre o frio ou mágoa sem cessar, eu vou te suplicar da nossa arte pela arte, pra vivermos uma vida dadaísta, dar-te pra ti, das te pra mim...”
Enchi minha adega, comprei novas telas, mudei as tintas, e novos cadernos. E esperava a noite chegar. Antes que eu me esqueça, da minha cabeça. Ainda teimo que não sou pra isso. Mas meus olhos precisavam correr o risco.
Um comentário:
Viciante ! Dava pra fazer um romance aí.
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