Dias abstratos são esses por qual passo. Não sei onde, como, ou até o porquê. Uma ocupação da semana intensamente cansativa e desgastante. Pensei que não seria tão bom quanto imaginava, mas meu texto sempre caminha por linhas circulares, nunca sabe qual será o ponto ou a vírgula que encontrará, mas sabe da possibilidade de sempre ter um novo parágrafo. Dessa vez o sujeito no texto velho passou a ser sujeito inexistente de uma frase intransitiva morta. Jogada ao fogo e suas cinzasse espalharam a segundos luz no ar. Não há de ser novamente.
Agora, cabe a mim cuidar do verbo haver. Existir ou ocorrer. O fato de que joguei fora as canetas velhas, comprei um novo bloco de folhas e um lugar novo pra escrever, diz muito de algo auto-explicativo. Não vamos falar do óbvio! Deixo aqui o preço da dúvida, pois é inútil ter certeza.
Cuido carinhosamente de cada código do novo pronome pocessivo. Quem sabe à partir de hoje consigo o colocar na minha nova oração.
Enquanto isso, de masinho, bem calminho, só observo e espero.
Levanto-me da cadeira, jogo meus romances sobre a cama, visto minha melhor roupa, passo meu perfume mais cheiroso e vou espalhar um pouco de amor por ai.
Eu vou sair, quem sabe te encontrar.
sábado, 30 de abril de 2011
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Iluoquente.
Estranho como todos os outros dias. Estranho como o dia em que passa. Vem calmo e manso, com jeito caminha pela linha árdua, perigosa e única. Vem como o doce e suave de um tecido de veludo sonoro. O olhar repentino e escondido. Lúcido e indeciso. A preferência pelo perigo. As horas eternas que não querem mover, o doce ilusório do pa-ra-do. Idéias confusas e iguais, dificuldade de caminhamento. Sentidos que não se negam, que tem medo de uma decisão, uma posição diante a autoridade da liberdade, que te prende e te ilude. Manda-te pra fora e você descobre quem ela é. O medo da solidão.
- Porque vais embora?
- Eu preciso da liberdade, que tu tanto queres.
- Mas e a solidão, que tu me deixas?
- É o pedaço de você que carrego! Deixo-te um vazio e te preencho em meu peito!
- Como lido com esse vazio?
- Guardes em teu peito, e se preenchas comigo amanhã, outro dia...
- Mas e o agora? (Em suspiro a abraça)
- Tu dissestes a palavra certa.
- Ficas comigo?
- Não. Um c.
- Um "C"?
- Sim, o mais forte, mais apertado e mais vazio, o que me rodeia e imobiliza.
- Tu ficas?
- Teu "C" me aconchegas, nem deixo aqui, nem vou pra qualquer lugar. Tua indecisão, -Se se, ou se não, são falácias que me pedes um pouco mais de sedução.
- Porque vais embora?
- Eu preciso da liberdade, que tu tanto queres.
- Mas e a solidão, que tu me deixas?
- É o pedaço de você que carrego! Deixo-te um vazio e te preencho em meu peito!
- Como lido com esse vazio?
- Guardes em teu peito, e se preenchas comigo amanhã, outro dia...
- Mas e o agora? (Em suspiro a abraça)
- Tu dissestes a palavra certa.
- Ficas comigo?
- Não. Um c.
- Um "C"?
- Sim, o mais forte, mais apertado e mais vazio, o que me rodeia e imobiliza.
- Tu ficas?
- Teu "C" me aconchegas, nem deixo aqui, nem vou pra qualquer lugar. Tua indecisão, -Se se, ou se não, são falácias que me pedes um pouco mais de sedução.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
(x) Várias vezes.
Vez enquando, uma coisa normal, algo casual.
Vez enquando se passa despercebido,
fugindo desses padrões de estética,
uma questão de mero quesito.
Contrai o músculo bucinador,
eleva as maçãs do rosto,
e mostra ao mundo o branco do céu,
um coletivo de felicidade.
Vez enquando se escondem por mera bobeira,
vergonha ou falta de coragem.
É a perfeita distração para os olhos curiosos,
não é pouco, e nem exagero e nada medido
com tanta grandeza, mas uma felicidade de
múltiplas escolhas.
Vez enquando era só pra ser sincero,
um esquecido, daqueles que a gente esconde
em uma caixa a sete chaves que
para abri-lá iria doer, mas ainda doeria mais se não a abrisse.
Vez enquando, se dá uma história,
uma trilha sonora, se cria um filme,
carinhos e poemas desiludidos de suas métricas.
Perde-se em toda semântica. Aparece numa segunda-feira,
perdido no começo da semana.
Se parece com ensaios de literatura,
ou vez enquando apenas um teatro greco-romano,
uma satírica, zombaria, assim, coisa e tal.
Mas em alguns segundos, coloca-se palavras iguais
num substantivo aumentativo.
Vez enquando me faz voltar a degustar o acaso.
Mas assim,
só vez enquando.
Ou às vezes,
várias vezes!
Vez enquando se passa despercebido,
fugindo desses padrões de estética,
uma questão de mero quesito.
Contrai o músculo bucinador,
eleva as maçãs do rosto,
e mostra ao mundo o branco do céu,
um coletivo de felicidade.
Vez enquando se escondem por mera bobeira,
vergonha ou falta de coragem.
É a perfeita distração para os olhos curiosos,
não é pouco, e nem exagero e nada medido
com tanta grandeza, mas uma felicidade de
múltiplas escolhas.
Vez enquando era só pra ser sincero,
um esquecido, daqueles que a gente esconde
em uma caixa a sete chaves que
para abri-lá iria doer, mas ainda doeria mais se não a abrisse.
Vez enquando, se dá uma história,
uma trilha sonora, se cria um filme,
carinhos e poemas desiludidos de suas métricas.
Perde-se em toda semântica. Aparece numa segunda-feira,
perdido no começo da semana.
Se parece com ensaios de literatura,
ou vez enquando apenas um teatro greco-romano,
uma satírica, zombaria, assim, coisa e tal.
Mas em alguns segundos, coloca-se palavras iguais
num substantivo aumentativo.
Vez enquando me faz voltar a degustar o acaso.
Mas assim,
só vez enquando.
Ou às vezes,
várias vezes!
domingo, 10 de abril de 2011
?!
As minhas pessoas preferidas são aquelas que pensam como adultos e agem como crianças... Nunca o contrário.
Uma basbaquice é sempre uma basbaquice por muitos adornos sutis, mascarados ou com cuidados cultos ou formais com que esteja à mostra. Um ato nobre é ainda mais nobre quando levado ao ridículo da simplicidade. O detalhe é sempre mais aflorado e simpatizante. O detalhe é sempre o que me interessa... Nunca, nunca o contrário.
... Whatever that means to you all :)
Uma basbaquice é sempre uma basbaquice por muitos adornos sutis, mascarados ou com cuidados cultos ou formais com que esteja à mostra. Um ato nobre é ainda mais nobre quando levado ao ridículo da simplicidade. O detalhe é sempre mais aflorado e simpatizante. O detalhe é sempre o que me interessa... Nunca, nunca o contrário.
... Whatever that means to you all :)
Take me there
Uma boa música nova é, para mim, como um anel ou um par de sapatos novos: impossível não usar de novo... e outra vez, outra vez, mais uma vez e outra e outra e outra vez.
Uma boa música antiga é, para mim, como um amor deixado de lado, que só quer voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar e voltar.
Uma boa música antiga é, para mim, como um amor deixado de lado, que só quer voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar, e voltar e voltar.
Deve ser, pode ser!
deve ser da noite, deve ser do ontem,
vale a pena a espera, vale a pena a negação
estar aqui,
sombras depois.
os dois, primeiro
e depois os dois, inteiro.
há cem histórias atrás,
este era o nosso altar.
tudo passou, tudo mudou,
mas a espera faz voltar,
mas não há de ser aqui,
há de ser outro lugar
acende a vela
neste fim-de-semana
vamos acordar.
vale a pena a espera, vale a pena a negação
estar aqui,
sombras depois.
os dois, primeiro
e depois os dois, inteiro.
há cem histórias atrás,
este era o nosso altar.
tudo passou, tudo mudou,
mas a espera faz voltar,
mas não há de ser aqui,
há de ser outro lugar
acende a vela
neste fim-de-semana
vamos acordar.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Passa, e a gente se guarda como um presente.
O passado e o presente.
O passado presente
O passado que passa de um presente
O presente passado em frente
Passa presente ausente
Saudades do presente que foi passado
Gosto do passado ao lado inerente
Corre o dia do presente
Dê-me de presente o passa-tempo
Sente o doce do amargo e encoste os dentes
Agora se sente, escute o vazio da luz ausente
Escute uma música do passado e a traga pro presente
Olhe uma foto de repente,
Cole os pedaços sutilmente
Guarde no peito água ardente
Do toque na pele do passado e não-presente
Olhe para o lado inexperiente
Querendo um passado inexiste
Espere a vida, contente
Pois do passado só se colhe o presente
Toque a vitrola, tão envolvente
E se torne um olhar inocente
Um passado e o presente, de um futuro, da gente.
O passado presente
O passado que passa de um presente
O presente passado em frente
Passa presente ausente
Saudades do presente que foi passado
Gosto do passado ao lado inerente
Corre o dia do presente
Dê-me de presente o passa-tempo
Sente o doce do amargo e encoste os dentes
Agora se sente, escute o vazio da luz ausente
Escute uma música do passado e a traga pro presente
Olhe uma foto de repente,
Cole os pedaços sutilmente
Guarde no peito água ardente
Do toque na pele do passado e não-presente
Olhe para o lado inexperiente
Querendo um passado inexiste
Espere a vida, contente
Pois do passado só se colhe o presente
Toque a vitrola, tão envolvente
E se torne um olhar inocente
Um passado e o presente, de um futuro, da gente.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Ao acaso, por acaso, descaso!
San Francisco - Califórnia.
Perto do Hotel Sir Francês, onde ele morava. Todo dia tomava seu Bonde até a beira mar, trabalhava em um barco de turismo. Quarta-feira era sua folga, como de comum, ia à praça central, onde alimentava os pombos com pedaços do seu coração.
Sentou-se em seu banco de costume, ao seu lado uma moça. Ela tremia, parecia falar com o ar. Olhar disperso, cabeça baixa. Ele acende seu cigarro. Incomodado com o ar não responder a moça, lhe oferece um cigarro.
Antes do cigarro - Ele observou cada milímetro do seu corpo. Olhou em seu lado, livros de literatura, uma câmera digital, alguns postais - Ela era turista - Seu cabelo, loiro dourado, seus olhos se misturavam com céu daquele dia, pouco mais que um metro e sessenta e sete, usava um jeans, uma blusa branca, um casaco preto e uma boina. No pé uma sapatilha - preta com vermelha. Ela falava com o ar, e respondia em folhas, folhas de um caderno velho.
Antes do cigarro - Curioso, aflito, mal vestido, sem mais detalhes. Num primeiro instante não era amor, num segundo instante era paixão a 2° vista. Apaixonou pelos detalhes internos. A meiguice ao segurar sua caneta. A calma ao escrever cada letra. A postura sobre o banco. Não era por questão de tempo, mas ele gostou dela, não por ter tido tempo de gostar dela, mas pelo fato de poder gostar de alguém. Pouco se importava quem ela era de onde ela veio, o que ela fazia. O importava o ali, o agora. Não o agora ali na praça. Mas o agora ela sentada ali, o agora ele na casa dele pensando nela, o agora das pombas ao redor, o agora do som das pessoas passando rápidas e despercebidas ao seu olhar, o agora da aflição.
Depois do cigarro - Era o beijo mais inesperado que tive mais doce e mais suave. Nunca fui um cara de sorte, mas por um acaso do destino, me rotulei um agora. Segurei suas mãos frias e tremulas. Faltavam-me palavras para dizer. Ela se afasta rapidamente, olha para seu relógio e me entrega seu caderno e depois sai.
Nele, me choquei com o título - O Rapaz do banco -
“Ele não sabe das reações que me proporcionaram não se pode explicar algo sem fundamento, não sei o que aconteceu, chego a pensar que estou apaixonada por um desconhecido, estranho amar alguém que nem sei direito. Ele esta hiperventilando meus pulmões, dilatando minhas pupilas, me fazendo suar frio, tremer. Sou capaz de morrer ao ouvir uma palavra dele. Tenho medo de me referir a ele. Por isso, ar, faça que esse meu suspiro, seja um beijo de uma rosa que toque suavemente a face dele..."
Na hora do cigarro -
- Você aceita um cigarro?
- Não, obrigada, estou tentando parar de fumar.
- Achei que quisesse algo nas mãos agora, elas tremem.
- É queria mesmo, mas não cigarro.
- Mas você tem alguma coisa em suas mãos agora!
- EU?
- EU!
( Inspirado em Caio F. Abreu )
Perto do Hotel Sir Francês, onde ele morava. Todo dia tomava seu Bonde até a beira mar, trabalhava em um barco de turismo. Quarta-feira era sua folga, como de comum, ia à praça central, onde alimentava os pombos com pedaços do seu coração.
Sentou-se em seu banco de costume, ao seu lado uma moça. Ela tremia, parecia falar com o ar. Olhar disperso, cabeça baixa. Ele acende seu cigarro. Incomodado com o ar não responder a moça, lhe oferece um cigarro.
Antes do cigarro - Ele observou cada milímetro do seu corpo. Olhou em seu lado, livros de literatura, uma câmera digital, alguns postais - Ela era turista - Seu cabelo, loiro dourado, seus olhos se misturavam com céu daquele dia, pouco mais que um metro e sessenta e sete, usava um jeans, uma blusa branca, um casaco preto e uma boina. No pé uma sapatilha - preta com vermelha. Ela falava com o ar, e respondia em folhas, folhas de um caderno velho.
Antes do cigarro - Curioso, aflito, mal vestido, sem mais detalhes. Num primeiro instante não era amor, num segundo instante era paixão a 2° vista. Apaixonou pelos detalhes internos. A meiguice ao segurar sua caneta. A calma ao escrever cada letra. A postura sobre o banco. Não era por questão de tempo, mas ele gostou dela, não por ter tido tempo de gostar dela, mas pelo fato de poder gostar de alguém. Pouco se importava quem ela era de onde ela veio, o que ela fazia. O importava o ali, o agora. Não o agora ali na praça. Mas o agora ela sentada ali, o agora ele na casa dele pensando nela, o agora das pombas ao redor, o agora do som das pessoas passando rápidas e despercebidas ao seu olhar, o agora da aflição.
Depois do cigarro - Era o beijo mais inesperado que tive mais doce e mais suave. Nunca fui um cara de sorte, mas por um acaso do destino, me rotulei um agora. Segurei suas mãos frias e tremulas. Faltavam-me palavras para dizer. Ela se afasta rapidamente, olha para seu relógio e me entrega seu caderno e depois sai.
Nele, me choquei com o título - O Rapaz do banco -
“Ele não sabe das reações que me proporcionaram não se pode explicar algo sem fundamento, não sei o que aconteceu, chego a pensar que estou apaixonada por um desconhecido, estranho amar alguém que nem sei direito. Ele esta hiperventilando meus pulmões, dilatando minhas pupilas, me fazendo suar frio, tremer. Sou capaz de morrer ao ouvir uma palavra dele. Tenho medo de me referir a ele. Por isso, ar, faça que esse meu suspiro, seja um beijo de uma rosa que toque suavemente a face dele..."
Na hora do cigarro -
- Você aceita um cigarro?
- Não, obrigada, estou tentando parar de fumar.
- Achei que quisesse algo nas mãos agora, elas tremem.
- É queria mesmo, mas não cigarro.
- Mas você tem alguma coisa em suas mãos agora!
- EU?
- EU!
( Inspirado em Caio F. Abreu )
O toque de dispersão de um dia.
A dispersão de um dia. O segundo de distração. O instante de dia-não-comum. A situação especial. O telefone que toca. A voz que traz a notícia. O sorriso que comemora. Sinais de mundanças na mensagem. A vontade de conhecer o mundo, o mundo querendo me conhecer. Notícia boa. Possibilidade de habilidade em outra lingua. Não sei o nome, sei de onde veio. Não me importa, pouco se importa. A chance de sair do habitat natural, a segregação, a escolhida.
E meus dedos estão cruzados!
[É difícil traduzir em um só predicado notícias boas]
E meus dedos estão cruzados!
[É difícil traduzir em um só predicado notícias boas]
segunda-feira, 4 de abril de 2011
O que quer tomar?
Entre, o que quer tomar?
Jogue teu casaco no sofá, e sente-se aqui. Não, aqui não faz frio, te dou um vinho. Essa é a minha solução. Sente-se ao meu lado, quero ouvir tuas palavras ao pé do ouvido. Quero ver a arte dos seus olhos monocromáticos, e sua visão transparente. Não precisamos ser rápidos, tenho muito vinho para essa noite longa. Não me venha com o sorriso francês, com traços de uma linha tênue. Nosso caso é sério, muito sério pra ser levado a sério. Fale! De nada adianta deixar tudo na garganta. Tens uma única vida. Não vieste aqui só pela bebida. E teu casaco não é típico de alguém que irá embora há essas, assim, tão rápido, tão depressa. Seus passos estão curtos, seus movimentos calmos. Não é de alguém que veio à toa. No hall de entrada, a luz ta cortada. Não repare o caos. Se você duvidar, eu faço questão, me dê uma música e eu faço o refrão. Podemos fazer arte, pode ser abstrata, ou surrealista, expressionista ou impressionista, tanto faz. Vamos fazer arte, podemos começar com cócegas, depois um sorriso, troca de respiração, na linha tênue do nosso corpo podemos contorná-los com as mãos, podemos terminar no suspiro poético, ou no calor no inferno. Podemos fazer arte, artificial. Dou-te o grito, meu último grito. Na sala, sobre papeis amassados, palavras espalhadas, gargantas trancadas. Tragos roubados. Você pode entrar, e sair, só pra te distrair. Às vezes isso pega mal, mas é como uma pessoa normal, um pouco temperamental, fundamental. Só me vem quando não tem certeza, me diz com juras para pagar beleza. Depois do vinho, vamos brincar com cachaça a arte surrealista, nos misturamos na tinta e rolamos nossos corpos nus sobre os quadros no chão. Eu teimo que não sou pra isso, mas nossos olhos gostam de correr o risco. Pensávamos que esse era um dia diferente, dos quais costumávamos viver. Antes que nós esquecêssemos, escrevemos nossos nomes nesse papel. Mas essa noite é uma piada. Senti meu coração se dissolver com o vermelho-paixão. Pelo tapete, copos derramados, meu cabelo misturado resultado de nossa arte de tinta amarela. Tontos, tolos, bobos. Fazíamos arte, ao nosso modo. A bebida havia acabado. Peguei-me no sono.
Um barulho, acordo! Ao meu redor, tudo limpo, tudo seco. Vejo nossos papeis num livro sobre a mesa. Nossos quadros penduradas pela casa. Garrafas ao lado do lixo, e na geladeira um bilhete:
“Então sonhe, querida, querida, sonhe com quem você ama
Desse jeito você vai se encher de mundo com amor, talvez eu volte. Tenho medo de receber seu amor. Só tenho rancor de decepções pra te oferecer. Mas quero fazer arte. Quero viver de arte, com você. Ainda tenho tinta sobre meu corpo, fiz questão de guardar, pra pensar em você. Talvez de noite eu volte pra me encher de você. Pra gente beber. Pra gente se esquecer. Pra gente se relembrar. Talvez essa noite eu fique. Pra gente arder. Primeiro, vim aqui de fora, deixar no frio, o que não quero te dar. Não posso me colocar dentro de você com o asco que tenho dentro. Tua arte não merece a minha. Talvez esteja sobre o efeito do álcool. Mas espere até a noite, me ofereça uma bebida, tira-me o casaco, não digas nada, leia meus papeis, escute-me falar, me acalme com seu olhar e me receba, pois se voltei, não foi pra te machucar. Não me faças caso, ou vou me perder. Entre o frio ou mágoa sem cessar, eu vou te suplicar da nossa arte pela arte, pra vivermos uma vida dadaísta, dar-te pra ti, das te pra mim...”
Enchi minha adega, comprei novas telas, mudei as tintas, e novos cadernos. E esperava a noite chegar. Antes que eu me esqueça, da minha cabeça. Ainda teimo que não sou pra isso. Mas meus olhos precisavam correr o risco.
Jogue teu casaco no sofá, e sente-se aqui. Não, aqui não faz frio, te dou um vinho. Essa é a minha solução. Sente-se ao meu lado, quero ouvir tuas palavras ao pé do ouvido. Quero ver a arte dos seus olhos monocromáticos, e sua visão transparente. Não precisamos ser rápidos, tenho muito vinho para essa noite longa. Não me venha com o sorriso francês, com traços de uma linha tênue. Nosso caso é sério, muito sério pra ser levado a sério. Fale! De nada adianta deixar tudo na garganta. Tens uma única vida. Não vieste aqui só pela bebida. E teu casaco não é típico de alguém que irá embora há essas, assim, tão rápido, tão depressa. Seus passos estão curtos, seus movimentos calmos. Não é de alguém que veio à toa. No hall de entrada, a luz ta cortada. Não repare o caos. Se você duvidar, eu faço questão, me dê uma música e eu faço o refrão. Podemos fazer arte, pode ser abstrata, ou surrealista, expressionista ou impressionista, tanto faz. Vamos fazer arte, podemos começar com cócegas, depois um sorriso, troca de respiração, na linha tênue do nosso corpo podemos contorná-los com as mãos, podemos terminar no suspiro poético, ou no calor no inferno. Podemos fazer arte, artificial. Dou-te o grito, meu último grito. Na sala, sobre papeis amassados, palavras espalhadas, gargantas trancadas. Tragos roubados. Você pode entrar, e sair, só pra te distrair. Às vezes isso pega mal, mas é como uma pessoa normal, um pouco temperamental, fundamental. Só me vem quando não tem certeza, me diz com juras para pagar beleza. Depois do vinho, vamos brincar com cachaça a arte surrealista, nos misturamos na tinta e rolamos nossos corpos nus sobre os quadros no chão. Eu teimo que não sou pra isso, mas nossos olhos gostam de correr o risco. Pensávamos que esse era um dia diferente, dos quais costumávamos viver. Antes que nós esquecêssemos, escrevemos nossos nomes nesse papel. Mas essa noite é uma piada. Senti meu coração se dissolver com o vermelho-paixão. Pelo tapete, copos derramados, meu cabelo misturado resultado de nossa arte de tinta amarela. Tontos, tolos, bobos. Fazíamos arte, ao nosso modo. A bebida havia acabado. Peguei-me no sono.
Um barulho, acordo! Ao meu redor, tudo limpo, tudo seco. Vejo nossos papeis num livro sobre a mesa. Nossos quadros penduradas pela casa. Garrafas ao lado do lixo, e na geladeira um bilhete:
“Então sonhe, querida, querida, sonhe com quem você ama
Desse jeito você vai se encher de mundo com amor, talvez eu volte. Tenho medo de receber seu amor. Só tenho rancor de decepções pra te oferecer. Mas quero fazer arte. Quero viver de arte, com você. Ainda tenho tinta sobre meu corpo, fiz questão de guardar, pra pensar em você. Talvez de noite eu volte pra me encher de você. Pra gente beber. Pra gente se esquecer. Pra gente se relembrar. Talvez essa noite eu fique. Pra gente arder. Primeiro, vim aqui de fora, deixar no frio, o que não quero te dar. Não posso me colocar dentro de você com o asco que tenho dentro. Tua arte não merece a minha. Talvez esteja sobre o efeito do álcool. Mas espere até a noite, me ofereça uma bebida, tira-me o casaco, não digas nada, leia meus papeis, escute-me falar, me acalme com seu olhar e me receba, pois se voltei, não foi pra te machucar. Não me faças caso, ou vou me perder. Entre o frio ou mágoa sem cessar, eu vou te suplicar da nossa arte pela arte, pra vivermos uma vida dadaísta, dar-te pra ti, das te pra mim...”
Enchi minha adega, comprei novas telas, mudei as tintas, e novos cadernos. E esperava a noite chegar. Antes que eu me esqueça, da minha cabeça. Ainda teimo que não sou pra isso. Mas meus olhos precisavam correr o risco.
domingo, 3 de abril de 2011
"Coloca no toca-discos, como quem não quer nada. Liga a TV, ao mesmo tempo. E no meio dos sons que vêm também da rua e dos outros apartamentos, de repente aquela voz tão antiga e conhecida grita:
- Mother!
Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?"
Caio F. Abreu.
(Publicado no Estadão, Caderno 2, Domingo, 6 de abril de 1986)
- Mother!
Aumente o volume. Ou desligue para sempre, você me entende?"
Caio F. Abreu.
(Publicado no Estadão, Caderno 2, Domingo, 6 de abril de 1986)
Assinar:
Comentários (Atom)
